Dentro do coração de Deus: segurando minha filha enquanto estava morrendo


Há tantas histórias que eu quero contar. Histórias do nascimento, vida e morte de nossas filhas. Histórias que terminaram e histórias que estão apenas começando.

Algumas histórias levarão meses e anos para eu poder compartilhar. Algumas histórias, que são sagradas, e vou levar em segredo até o fim dos meus dias.

Mas esta é a história que tenho que lhe contar agora.



Margaret Susan e Abigail Kathleen nasceram no sábado à noite via cesariana. Quando finalmente conseguimos dormir tarde da noite, elas mantiveram-se estáveis na UTI Neonatal. Na manhã de domingo, não estavam mais. Passamos a tarde de domingo segurando Maggie, quando ela morreu em nossos braços.

As pessoas dizem que não existem palavras para isso, mas existem. São apenas dolorosamente palavras duras. Dizem que os pais não devem ter que passar por isso, mas passam. É apenas esmagadoramente horrível.

Mas o que todos concordam é que ter que fazer isso – segurar duas filhas, enquanto sua respiração fica mais lenta e os seus corações param – é insuportável.
Estou aqui para dizer-lhe que não é.

No domingo desabamos na cama com todo o peso da dor. Sabíamos que aquela manhã traria novamente a dor da despedida, que agora tínhamos de dizer adeus a Abby. Eu chorei intensamente para dormir e chorei acordada. Não sabia como fazer o que tínhamos de fazer.

Tentamos tomar o café da manhã. Oramos com o capelão. Finalmente, o terrível telefone do hospital gritou seu toque estridente novamente. Sabíamos que tínhamos de ir. Estremeci na cadeira de rodas, e Franco me levou lentamente pelos corredores que passara a odiar, as pinturas felizes de animais e borboletas, fotos alegres de sobreviventes milagres.

Quando entramos no quarto de Abby, a enfermeira perguntou se queríamos segurá-la por um tempo antes de começarem a desmontar todos os tubos. Não havia pressa, disse ela. Poderíamos ter com ela todo o tempo que quiséssemos. E nós, queríamos segurá-la em nossos braços?

O nó na garganta escapou em um soluço. Não. Eu queria segurar duas gêmeas saudáveis. Não queria fazer isso com um minúsculo, doente bebê prematuro que morreria em poucas horas. Eu queria tudo, menos isso.

A enfermeira persistiu, gentilmente. Eu poderia dizer que Franco estava relutante e cansado também. Mas algo nos cutucou a ceder. Ok, nós dissemos. Gostaríamos de segurá-la.

Aqui é onde tenho que fazer uma pausa na história. É onde eu tenho que lhe dizer que, se alguém me dissesse o que iria acontecer, eu negaria, balançaria a cabeça ferozmente e diria que tal coisa jamais aconteceria. E muito menos comigo. Que soa como o sentimento puro, um sonho melancólico. Nada como realidade.



Eu tenho que lhe dizer isso, porque entendo como a próxima parte da história soa.
As enfermeiras desenrolaram Abby do seu ninho de cabos e tubos. Lentamente colocaram Abby no meu peito, cobriram-na com camadas de cobertores quentes e sairam da sala.
E a tristeza deixou meu corpo.

Eu comecei a sorrir. Eu abri um grande sorriso. Esta não é a reação que você espera quando enfermeiros colocam o seu bebê que está morrendo em seus braços. Mas tudo virou do avesso. Fui inundada com a paz. Me enchi com a alegria mais profunda que já senti. Não conseguia entender por que tristeza e dor tinham ocupado qualquer polegada do meu corpo antes daquele instante. Esse era um mundo diferente.

Abby respirava e eu também. Ela estendeu as mãos sobre meu peito, atingindo-o com seus pequenos dedos. Segurei suas pequeninas costas, senti seus pulmões e coração vibrarem contra o meu. Fechei os olhos e fiquei ali, sorrindo. A enfermeira entrou no quarto e sacudiu a cabeça: Não posso acreditar que você está sorrindo. Franco sussurrou em meu ouvido, Gostaria que você pudesse ver como você olha agora. Você está tão cheia de alegria.

Isso transformou tudo.

Depois de um tempo eu tentei racionalizar, gentilmente. Certamente foi apenas a liberação do hormônio oxitocina após o parto. Todos os hormônios do amor correndo para me ajudar a ter um vínculo com o bebê. Eu entendi a fisiologia do parto e nascimento; sabia que a ciência poderia explicar isso. Mas, depois de 20, 30, 40 minutos de alegria incessante, comecei a me perguntar por que não havia mergulhado de cabeça. Por que eu não poderia evocar um único sentimento de tristeza. Por que não conseguia me lembrar o motivo do choro quando dissemos adeus a Maggie, quando se sabia que essa perfeita alegria era o que ela esperava.

Isso não fazia sentido.

Abri os olhos, ainda sorrindo. Franco estava em paz ao meu lado, seu corpo relaxado, seus olhos avermelhados. Você quer segurá-la?, perguntei a ele. Claro, ele respondeu sorrindo. Assim, com a ajuda de dois enfermeiros, cuidadosamente levantamos Abby do meu peito e a colocamos no peito dele. Ele fechou os olhos e sorriu; ela estendeu os braços e segurou-o.

E diante dos meus olhos, eu vi exatamente a mesma alegria se desdobrar em seu rosto.
Era tudo a mesma felicidade.

Seguramos Abby por horas. Nós revezamos. Tiramos fotos. Sempre que abríamos nossos olhos para falar, tínhamos a mesma conversa confusa.

Eu não estou mais triste. Isso não faz sentido. Vê como me sinto. Nunca senti tanta alegria. Acho que isso é honestamente o que o céu deve ser. Nunca soube que pudesse me sentir assim.

E é com esta parte da história que quero impressionar você, tão profundamente como um bebê de 1 Kg me impressionou sobre meu peito. Este foi o momento mais feliz que já tive.
Sabe aqueles flashes que você vislumbra, quando a vida parece perfeita por um instante? O dia do casamento, o nascimento de um bebê, uma noite de verão encharcada de sol. Todos nós temos vários momentos. Vislumbres de quão boa a vida pode ser.

Mas tudo o que tinha passou diante? Não era nada como nos sentimos na sala da UTI neonatal. Este era o céu e se estendeu por horas.

Depois de horas de imersão nesta alegria incessante, somente poderíamos concluir que nos tinha sido dado um dom raro e perfeito. Estávamos nisso juntos. A nossa pequena filha, nossa segunda filha morrendo, tinha aberto um espaço que nunca soubemos que existia.

Nunca mais vou sentir tamanha alegria de tudo o que vier a seguir. Estou absolutamente certa disso. E se eu pudesse compartilhar apenas uma pequena parte do que se sentiu, respirou e amou naquela sala de UTI neonatal, você nunca mais temeria qualquer dúvida do divino ou da existência de vida após a morte. Estou certa disto, tão profundo e duradouro foi o que ocorreu. Isso está ancorado em cada fibra do meu corpo a partir de agora.

Essa é a história que tenho que lhe contar. Na certeza de que enfrentaríamos o pior dia de nossas vidas, foi-nos dada a plenitude da alegria. À medida que encontrávamos a morte face a face, nós encontramos a vida. Quando esperávamos desespero, descobrimos somente amor.

É uma história que não faz sentido. É uma história que muda tudo. É uma história que transformou quilo de que é feito o nosso próprio ser, como queremos passar o resto de nossas vidas, e tudo o que sabemos sobre Deus.

Pode ser apenas o começo da melhor história que me foi dada para compartilhar.

Laura Kelly Fanucci é uma premiada autora de livros sobre paternidade, questões de fé e vida e discipulado. Ela escreve no blog Mothering Spirit, onde esta história foi originalmente publicada. 

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