Os milagres de Nossa Senhora da Abadia


Devotos relatam as graças recebidas enquanto a ave tenta encontrar o caminho de volta ao ninho.

Depois de ser afugentada da barraca do paraibano a ave refugiou-se dentro do Santuário de Nossa Senhora da Abadia parando debaixo de um dos bancos da Igreja. Acima de sua cabeça e de suas penas agitadas um senhor de corpo magro e esguio, mãos exageradamente tremulas, descansava o frágil corpo fatigado pela ação impiedosa do tempo nos bancos da igreja. Uma luz azul provinda dos vitrais da igreja iluminavam o velho como se este fosse o protagonista de uma peça no centro do palco envolto por um canhão de luz. O ancião é o aposentado Washington Bertoluci. Com seu olhar fixo na imagem de Nossa Senhora sobre o altar ele lembrou da infância e adolescência. Washington era um jovem muito matreiro. No seu monologo mental, lembrou que costumava fazer artes como subir em locais íngrimes e ter atitudes que, volta e meia, colocavam sua vida em risco. Numa dessas atitudes insensatas subiu no lombo de um boi. A história não podia acabar bem. Bertoluci cravou suas esporas no lombo do animal que começou a pular e rodopiar pelo pasto. Num dos saltos o animal atirou o garoto matreiro a vários metros de distancia. "Bati com a cabeça em uma pedra. Desmaiei por algumas horas e acordei no colo de minha mãe que estava orando. Ela pediu alguma coisa a Nossa Senhora da Abadia", lembra.




Beira-mato, o violeiro devoto, foi surprendido pela ave que saiu de sua viola.
Foto: Juliano Carlos
Aflita com a possibilidade de perde o filho, a mãe de Washington pediu à Nossa Senhora da Abadia que intercedesse em favor de seu filho curando-o das chagas causadas pelo acidente e dando-lhe um pouco de juízo.

O garoto Washington, que na época tinha 16 anos, cumpriu a promessa feita pela mãe caminhando como romeiro 128 km até Romaria.
Hoje, aos 77 anos, garante que a Santa atendeu o primeiro pedido da sua mãe. "Quanto ao juízo...", disse a si mesmo esboçando um sorriso tão grande e largo quanto a entrada do Santuário da Abadia. 




Um barulho assustou novamente o pássaro. A ave ficou perplexa ao ver um instrumento de madeira com curvas semelhantes as ancas de uma mulher. Uma viola sem cordas havia sido colocada ao seu lado. Vendo aquele buraco à sua frente, o pássaro resolveu atocaiar-se lá dentro e entrou no ventre da viola. Finalmente sentia-se seguro. O dono da viola é violeiro Amado Delfino Lopes, mais conhecido pelos colegas violeiros como Beira-mato. Ele foi até o Santuário de Nossa Senhora da Abadia para agradecer o dom de tocar e cantar e também para que a Santa abençoe as novas cordas que havia comprado para colocar na sua viola. Sem se acanhar com a presença de outras pessoas, Beira-mato dedicou suas palavras a mãe de Cristo. Beira mato começou agradecendo a graça recebida na infância. Por ser criança pequena não se lembrava da enfermidade que tinha quando sua mãe fez um pedido a nossa senhora. "Brigado Mãe Divina, Mãe de todos nós pela possibilidade que a senhora me deu de poder caminhar com saúde. Agradeço também o dom que a Senhora me deu de poder levar alegria para as pessoas através do dedilhar da minha viola. Queria aproveita e pedir mais uma graça pra Senhora. Sei que no arto da sua generosidade a Mãe do menino Jesus e de todos nós vai me atender. Queria pedir pra Senhora abençoar as cordas da minha viola para mim poder continuar entoado essas músicas divina. Brigado Mãe. Prometo que dessa vez pago a promessa de deixar de beber em demasia", agradeceu, ergueu as cordas na direção do altar, pegou a velha companheira de noitadas e seguiu rumo a saída da Igreja. O balanço da viola agitou o pássaro que assustado tentava sair pelo buraco da viola. Beira-Mato achou estranho a agitação da viola que tremia em suas mãos. Ao tentar olhar o que estava acontecendo dentro da viola assustou-se com a cabeça do pássaro que brotou de dentro da sua viola. Incrédulo vislumbrou o pássaro por uma fração de segundos. Mais uma vez assustado voou sem destino para longe da agitação e do perigo. "Que milagre foi esse", questionou Beira-Mato. 


As asas da ave só param de bater ao encontrarem o parapeito do salão de cabeleireiros localizado ao lado da praça da Abadia. De dentro do salão a bela mulher negra saiu, desta vez com o seu cabelo todo arrumado. Acompanhada do seu marido ela contemplava a imagem de Nossa Senhora no alto do Santuário. Desviando o olhar para a praça, lembrou-se do tempo que sua filha corria para se divertir nos brinquedos, durante o período da festa da Abadia. Seus olhos marejaram ao lembra da promessa feita em favor da filha. Ela prometeu dedicar sua vida a obras assistências em favor de crianças com leucemia. A Santa atendeu seu pedido. A mulher negra acredita que sua filha viveu mais dois anos ao seu lado por causa da graça concedida por Maria. Moveu sua mão até os lábios, o suave e terno movimento foi acompanhado pelo olhar do pássaro cujo o único deseja era voltar para o seu porto seguro. A mulher beijou a mão e mandou o carinho revestido de agradecimentos pela graça recebida para a Santa no alto da Igreja. O pássaro que acompanhou atentamente o movimento visualizou o seu ninho apontado pelo braço estendido da mulher. As asas se agitaram com força e a ave passou rasante próximo ao rosto do casal. "O que foi isso?", perguntou o assustado marido. Acompanhando o bater de asas do pássaro seguindo rumo ao alto da Igreja e posando sobre a cabeça de Nossa Senhora, a mulher respondeu. "É o Espírito Santo que passou por nós, ouviu a minha prece e levou até a Santa a minha voz".


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